segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Foi há 10 anos







Que soube que tinha entrado na faculdade. O curso que eu queria, na cidade que eu queria. Sempre gostei de escrever. Sempre fui muito curiosa e sempre senti que era na escrita que me expressava melhor e mais facilmente. Por isso nunca tive grandes dúvidas sobre o curso a seguir: jornalismo. Quanto à cidade, e para grande desgosto da minha mãe, resolvi contrariar a tendência daquele ano (e de todas as minhas amigas). Coimbra era só a minha 4ª opção. As três primeiras, onde entrava de certeza, eram em Lisboa. O facto de não ter colegas que também viessem para cá, de estar a 3h de casa, de não conhecer absolutamente nada da cidade (a não ser o Colombo e pouco mais) e de ir morar sozinha não sabendo fazer rigorosamente nada em casa não me assustou. Até cá chegar e aperceber-me da realidade.
Pela primeira vez estava realmente sozinha, a 3h de distância da minha família, numa cidade onde as pessoas não se olhavam nos olhos, onde andavam de cabeça baixa pelas ruas, onde não existia "obrigada" nem "por favor". A frequentar uma escola onde não conseguia fazer amizades, onde 90% dos alunos eram de Lisboa e por isso já tinham os seus grupos de amigos (muito fechados) e onde olhavam para os colegas como adversários a abater. "Concorrência" direta que dali a 4 anos lhes podia tirar o lugar na CNN ou na BBC... (estas eram, de facto, as aspirações de grande parte daquela gente).
Mas eu teimava que era em Lisboa que estava o meu futuro. E que me recusava a ser reporter de um jornal regional (nessa altura não tinha sequer a noção de que a probabilidade de vir a trabalhar na área do jornalismo era de 0,000000001% e que trabalhar num jornal regional, remunerada, poderia ser praticamente um achado).
Não foi fácil. Foram anos difíceis e vazios. Não fiz muitos amigos, não tive muitas histórias para contar, passei muito tempo sozinha e chorei o equivalente ao rio Tejo.
Mas não desisti. Ou se calhar até desisti, é um facto. Chegou a um ponto em que parei de lutar e me resignei às evidências: não tinha estofo para isto, para esta cidade fria e impessoal, para estas pessoas tão independentes e sem coração. Para um mundo que não era para mim. Mas ainda assim não perdi a esperança. Algo me dizia que o meu futuro, apesar de tudo, estava aqui. Que ainda ia aparecer o que eu queria. Exatamente aquilo que eu queria. Aqui. E apareceu.
Em 10 anos cresci mais como pessoa do que muita gente cresce numa vida inteira. E muito disso deveu-se à luta (e que luta!) que travei para me adaptar a um mundo que de facto não era o meu, mas que eu sentia que iria fazer parte de mim.
Podia ter voltado para casa, podia ter pedido transferência para Coimbra, podia ter ido por outro caminho e estar a fazer agora outra coisa qualquer.
Mas 10 anos depois tenho a minha carteira de Jornalista e faço aquilo de que gosto, com brio e paixão, num meio com o qual me identifico e do qual tenho muito orgulho, e com pessoas (e esta parte é tão importante!) com quem é bom e saudável conviver todos os dias. Que me aceitaram como eu sou, que me quiseram conhecer melhor e pôr à prova as minhas capacidades e o meu valor. Algumas mais do que colegas já são Amigas... e não há ordenado que pague isso. Isso e gostar realmente daquilo que se faz e acordarmos todos os dias sabendo que se está exatamente onde era suposto estar.

5 comentários:

Inês disse...

Eu também me mudei para a cidade universitária mais longe de casa e também não conhecia ninguém, mas no Porto acolheram-me lindamente. Tendo estado a viver em Lisboa mais de um ano, percebo perfeitamente aquilo que dizes, e acho que não teria sido tão feliz durante a vida universitária se tivesse ido para a capital. Agora, depois de adulta, gostei de viver em Lisboa mas porque encaro a vida de uma forma bem diferente do que encarava quando tinha 17 anos e entrei para a faculdade.
Enfim a única coisa que me faltou a partir do 4º ano (e que falta agora que já acabei o curso há uns anitos) foi aquilo que sempre te motivou: gostar do que faço. Tendo isso, tens praticamente tudo :)

Eu Mesma! disse...

Sou de Lisboa... fiz faculdade em Lisboa e ... tenho grandes amigos de todos os cantos do país que conheci exactamente na faculdade...

não concordo quando dizes que esta cidade é impessoal e que as pessoas são frias... que nem obrigado dizemos...

não somos de facto as pessoas mais simpáticas deste mundo ... não sorrimos para todo o mundo... não estamos sempre a sorrir para o mundo em geral mas... somos sempre simpáticos para quem tb é simpático e ... Lisboa é uma cidade mágica... é preciso é de facto entender o encanto da magia...

:)

Layanne Eduarda disse...

Menina, esse texto é surpreendente e inspirador! Podes ter certeza que mesmo eu sabendo do que quero Fiquei muito mais confiante. :)
Meus parabéns pela força de vontade que tens, por ter conseguido o querias, e tenho certeza que o que queres, não escapa pelas mãos. :)

Ana Sofia disse...

Podia dizer que tiveste sorte, mas mesmo não te conhecendo vejo que tiveste *trabalho* :)

Miss G. disse...

E eu que te comecei a acompanhar ainda a meio desse caminho sei a luta que travaste para alcançar aquilo que queres. E sei que sim, é verdade que te sentiste perdida, mas corajosa como és soubeste procurar e encontrar o caminho. E sem fazer desvios ou atalhos. E nisso (e outras coisas) somos muito parecidas. Também eu acreditei que o meu caminho era a psicologia clínica e parece que agora estou finalmente a conseguir alcançar aquilo que quero e acredito ser o meu caminho. E sabes o que se costuma dizer? Que a luz vem das pessoas que se perdem e se voltam a encontrar. Tenho muito orgulho em ti Ritititz!