Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Thank God She's a (Wheels) Woman



Tenho a imensa sorte de, ao longo da vida, ir tropeçando em pessoas especiais. Daquelas que fazem a diferença, que são uma inspiração, que eu admiro, que claramente se destacam na multidão, um exemplo a seguir. A Mafalda é uma delas. Tropecei nela no 1º ano de faculdade e desde então temos tropeçado uma na outra por acasos do destino. Hoje lembrei-me dela, procurei-a, e em menos de 10 minutos veio a resposta. Fiquei a par das boas e das más notícias. Fiquei com o coração apertado e mais uma vez tive a certeza de que certas coisas só podem acontecer a certas pessoas, porque só essas pessoas conseguiriam aguentar. Fiquei feliz pelo sonho que ela realizou e mais uma vez tive a certeza de que as coisas boas vão ao encontro de quem não deixa de sonhar. E fiquei com uma vontade enorme de beber chá na casa nova dela, o seu ninho, que ela conseguiu construir com muito esforço.
Tenho a imensa sorte de conseguir entender as lições que a vida nos dá, de forma subtil, e que surgem sob as mais diversas formas. No caso da Mafalda, sobre rodas e sempre com um sorriso na cara.

Querem mesmo falar sobre a crise?



A conversa girava em torno das greves da CP, do Metro, dos controladores aéreos, das queixas dos trabalhadores, dos cortes nos subsídios dos funcionários públicos, de como tudo está tão caro, desta crise. E de repente alguém diz: "Eu ainda não senti que fui atingida pela crise." E acho que foi a primeira vez que ouvi alguém assumir, sem qualquer problema, alto e bom som, aquilo que é uma realidade para muita gente que eu conheço. As pessoas queixam-se das despesas que têm, do estado a que este país chegou, de que ninguém sabe como será o dia de amanhã. Mas na prática, no dia a dia, poucos são aqueles que apertam verdadeiramente o cinto. Reforço que estou a falar do meu círculo de amizades e conhecidos, que estão todos empregados, na casa dos 30, uns ganham muito bem e outros não ganham mal de todo. Todos se queixam disto e daquilo, que são explorados, que aquilo que ganham é uma miséria para as despesas que têm, que se fartam de trabalhar, que isto está pela hora da morte... mas não vejo ninguém baixar o nível de vida ou a fazer sacrifícios (pelo menos assumidos) por causa da crise. Continuam a ter bons carros, a fazer grandes viagens, a ter iPhones e iPads. A morar em grandes casas, a ir aos festivais de verão, a ter cartões de crédito e comprar sapatos, roupas e malas quando lhes apetece e porque sim. E ainda bem! Mas então queixam-se de quê mesmo?
Eu (infelizmente) não faço parte desse grupo de pessoas, que ganha muito bem, e que de facto não precisa de fazer sacrifícios. Tenho de fazer alguns. Não gosto de lhe gamar sacrifícios, mas antes uma "ginástica orçamental", que implica muito jogo de cintura, travão e gestão de prioridades, para conseguir juntar algum dinheiro ao fim do mês e poder concretizar determinados objetivos. Só assim consigo pagar todas as despesas e ainda fazer as minhas viagens (que também as faço), ter as minhas escapadinhas românticas, fazer a depilação a laser, comprar presentes bons para quem os merece e retirar um prazer imenso de tudo isso. Mas até chegar aí, há todo um mês de trabalho a recibos verdes pelo meio (sem subsídios de nada e sem seguranças de coisa nenhuma), com direito a "almoços de marmita", preparados no dia anterior em casa, com pequeno-almoço e café bebido em casa e não na rua, com compras no supermercado maioritariamente das chamadas "marcas brancas" que são de qualidade igual (não venham cá com tretas), sem cartão de crédito, sem comprar roupa, malas ou sapatos só porque estou com a neura ou sem nada para fazer, sem jantar fora constantemente, sem ir ao cinema quando me apetece, sem arranjar as mãos todas as semanas e os pés todos os meses. Se gostava de poder fazer todas estas coisas sem quaisquer restrições? Gostava, pois! Se sou menos feliz por não as fazer? Claro que não! Mas cada vez mais percebo que a maior crise que vivemos é a de valores, e a flagrante falta de coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz.

Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

As pessoas bem resolvidas



“(...) Ora se existe alguma caraterística distintiva nas pessoas bem resolvidas é a de saberem que são elas as protagonistas da sua própria história e que, aconteça o que aconteça, é a elas que cabe todas as decisões e resoluções. É a elas que cabe mudar a sorte, é a elas que compete tomar conta de si. 

As pessoas bem resolvidas não são, necessariamente, as mais inteligentes, as mais bonitas, as mais temerárias ou as que têm mais sucesso profissional ou emocional. Também não têm de ser aquelas a quem a vida corre melhor. Frequentemente pelo contrário até, são as que tiveram perdas significativas mais precoces ou experiências dolorosas continuadas. A diferença em relação a outros é que aprenderam com isso e que usaram os acidentes de percurso, não para se instalarem numa frustração azeda nem uma desculpa crónica para todas as coisas que correm mal, mas antes tentaram dar a volta por cima e conseguiram. Foram conseguindo uma e outra vez e deram-se conta de que isso era um trabalho perpétuo e quotidiano. 

(...) Ser bem resolvido quer apenas dizer estar bem com a vida. Para estar bem com a vida tem de se estar bem consigo mesmo, e possuir uma atitude aberta e honesta ao que há e ao que há para vir. Não é fácil, mas é bom. Muito bom."


Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Da educação



Lembro-me de ser pequena e assistir a súbitos ataques de nervos do meu pai, em pleno restaurante, ao ponto de se levantar da cadeira e ir para a rua por um tempo até se acalmar. Tudo porque a pessoa da mesa ao lado estava a comer de boca aberta e a fazer barulhos, ou a sorver a sopa ou a bebida, em vez de comer e beber silenciosamente. Lembro-me de o meu avô me perguntar "És maneta?", quando eu comia apenas com uma mão e deixava a outra sobre o colo. Até podia comer só com a mão direita, mas a esquerda tinha de estar pousada sobre a mesa. Lembro-me de a minha avó me martirizar para dizer sempre "Obrigada" ("com A porque és menina!") e responder "Não tem de quê", se me agradecessem algo. Lembro-me de a minha mãe não aguentar ver-me com o pingo no nariz e estar constantemente a dizer: "Assoa-te!". De me encher de pacotinhos de lenços de papel pequenos, com bonecos e cheirinho, para eu gostar de os usar, e nunca, jamais, em tempo algum, andar com o pingo no nariz a "fungar" de minuto em minuto.
São coisas pequeninas. Podem ser embirrâncias até. São coisas que passam totalmente ao lado de muita gente e que não lhes fazem qualquer confusão. E são coisas que a mim me tiram do sério. Talvez porque me esteja de facto nos genes e hoje percebo e sinto os mesmos ataques do meu pai. Também eu tenho vontade de sair porta fora ou mandar dois berros quando vejo (ou ouço) determinadas coisas. Talvez porque assim fui ensinada. Mas tal como houve um esforço para me incutirem determinados comportamentos, também me ensinaram e explicaram que nem toda a gente foi educada da mesma forma (ou de todo). Disso felizmente nunca me esqueci, e é sempre nisso que penso antes de criticar ou chamar a atenção de alguém. Por muito que me incomode ou impressione determinado ato. Educação, para mim é isso: corrigir em nós o que está mal e ser tolerante o suficiente para perceber que os outros não são como nós. É isso que espero poder passar um dia aos meus filhos.

Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Pensamento para o fim de semana:





:)

Ainda sobre o post anterior

Um dia, excecionalmente, quebro o meu silêncio e faço uso da palavra, que afinal de contas também é de prata. E também eu me dou ao direito de dizer aquilo que penso mas não digo para não magoar, para não ofender, para não expor fragilidades e pontos fracos, para não colocar o dedo em feridas que por mais que se tentem camuflar, continuam abertas.

Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

O silêncio é d'ouro



"Tenho o maior medo das pessoas que não sabem estar caladas. O silêncio é estruturante no caráter e no comportamento de uma pessoa e na vida. Nós precisamos de silêncio."
Miguel Sousa Tavares

E eu partilho deste medo. De pessoas que não sabem guardar para si determinados comentários, que não sabem conviver com o próprio silêncio nem gerir os pensamentos sem uma necessidade imediata de os verbalizar. Que não conseguem controlar o impulso de criticar, de apontar o dedo, de julgar. Que se acham constantemente donos da razão e por isso no direito de opinar sobre todo e qualquer assunto, toda e qualquer pessoa, e invariavelmente num tom depreciativo. Tenho medo do que lhes pode sair pela boca, e muitas vezes sinto vergonha alheia, por saber que não têm noção de que estão a ser inconvenientes, despropositadas, injustas, e que também elas mais tarde serão apontadas, julgadas e criticadas sem saberem. Tenho medo porque alguém que não sabe estar calado relativamente a outra pessoa, também não saberá estar calado em relação a mim. E tenho perfeita noção de que também eu sou alvo dessa verborreia sem fim... É pena que elas não tenham essa noção. Provavelmente pensariam duas vezes antes de abrir a boca.