segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Da dignidade

Eu não era grande fã do Carlos Castro, o cronista. De quando vez lá lia as suas pérolas, uma mistura de troca de favores entre destilar veneno sobre quem não lhe interessava e afagar o ego a quem lhe dava jeito.. enfim.. como tantos outros por aí. O facto de ter carteira de jornalista não era sinónimo de praticar bom jornalismo. Acho por isso fantástico que venham agora tantos "colegas" de profissão elevar as suas qualidades enquanto tal.
Como pessoa não faço juízo de valor. Conhecia o mesmo que quase todos nós. Aquilo que víamos nas rubricas de comentários sociais, personagem ou não, o seu envolvimento com o mundo do espectáculo, as manias, tiques e jeitos de uma "Diva" que não denunciava ser de trato fácil.
O que se passou dentro daquele quarto de Hotel em N.Y ultrapassa qualquer cenário especulativo que possamos fazer. O contexto, as circunstâncias, as atenuantes, a dinâmica entre os dois é algo que fica para ser analisado, estudado e julgado por quem de direito.
Mas sei que, quer queiramos quer não, a figura de Carlos Castro sempre esteve associada pelo tipo de trabalho que fazia e pela postura que mantinha, a pouca credibilidade, a não ser levado a sério, ao mundo do espectáculo, do faz de conta, purpurinas, brilho e lantejoulas. Quando muito provavelmente, quando o pano caía, e as luzes se apagavam, quando acabavam as festas do croquete e do rissol. Quando entrava em casa sozinho, ao fim de 65 anos de vida, e deixava de ser o centro das atenções, uma profunda solidão e sentimento de decadência deviam tomar conta de si.
Choca-me profundamente a maneira como morreu. O assassinato, o espancamento, a tortura. O ser encontrado naquele estado, de vulnerabilidade extrema, mutilado e espezinhado. Foi um crime, e espero que seja tratado e julgado como tal.
Choca-me ainda mais que, mesmo depois do fim, quando se pensa que tudo acabou, família e amigos, ao tentarem fazer a sua vontade, que mais uma vez mostra toda a teatralidade e dramatismo que Carlos Castro trazia para a sua vida, acabem por despejar as suas cinzas não sobre as ruas da Brodway, como provavelmente ele terá imaginado sem fazer ideia de que não era permitido, mas numa conduta de ar do metro. As imagens desse momento são decadentes, e provoca um sentimento de vergonha, de verdadeira pena, por aquelas irmãs, desoladas pela dor, que ao acharem fazer o que era certo, acabaram por retirar o último pingo de dignidade que restava àquele homem, que temia ser assassinado, que desejava morrer em N.Y, que fazia disso assunto recorrente, mas que nunca imaginou ser este o seu triste fim.

2 comentários:

Rita G. disse...

Disseste exactamente aquilo que penso sobre o assunto...tb achei muito triste despejarem as cinzas do senhor numa conduta de ar. Muito deprimente...bj

Miss G. disse...

Fiz referência a este teu texto num que acabei de escrever.