segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Progressos


Sabem aquele momento, aquele breve segundo, em que no meio de uma conversa acesa se sentem cobertas de razão e por isso surge uma vontade quase incontrolável de disparar uma ou outra farpa, conscientes de que daí vai surgir uma discussão? Pois bem, eu sou daquelas pessoas que mesmo tendo perfeita noção disso, quase nunca deixo de o fazer. Não me calo, não me contenho, não me controlo. Disparo em todas as direções e digo o que quero e o que não quero. Acho-me dona da razão e por isso no direito de dizer aquilo que penso e aquilo que estou a sentir. Quase sempre de forma exponenciada e entorpecida pela "raivinha" do momento, pela fúria do que me fizeram sentir.
Mas ultimamente tenho-me esforçado para controlar esse impulso. Para controlar essa "raivinha", guardá-la e saber geri-la sozinha, sem desabafos. E depois, mais tarde, quando já conseguir verbalizar o que estou realmente a sentir, aí sim dizê-lo. Não é fácil, nada mesmo. Há coisas que eu digo e só me apercebo que as disse quando estou na última sílaba da última palavra. E arrependo-me. Mas cada vez mais percebo que o facto de estar coberta de razão não impede que se desencadeie uma discussão e que depois se digam coisas, de parte a parte, que não se querem dizer. Custa-me imenso, confesso! Sempre disse que me faltava uma sala de espera entre o coração e a boca. Mas tenho, aos poucos, tentado construir esse espacinho, onde as palavras podem perfeitamente aguardar a sua vez. Já aprendi que não vou sufocar por isso. E que o importante não é dizer tudo o que se pensa mal as coisas acontecem. Não é nessa altura que o outro vai perceber que fez porcaria. É preciso saber esperar, dar espaço, aguentar silêncios desconfortáveis (que me custam horrores), para depois saber dizer aquilo que realmente quero que o outro saiba: "Fiquei triste por isto." ; "Pedia-te que não voltasses a repetir." E pronto, o resto já não é comigo. Mesmo que do outro lado venha uma má resposta, ou um suspirar que eu sei perfeitamente que significa "não me apetece ter esta conversa nem que me chateies com esse assunto", ou um silêncio que dura mais 12h.
Não há nada como ter a consciência tranquila de quem disse a coisa certa, na hora certa.

3 comentários:

Miss G. disse...

Gostei do "raivinha". Sabes que eu sou o contrário, tenho uma sala de espera demasiado grande entre o coração e a boca, e tantas, tantas, tantas vezes não digo tudo o que quero. Não é por mal nem por achar que não devo é mesmo por não conseguir, por ter medo da reacção do outro, por achar que poderá ficar chateado comigo. Mas estou errada. Sei que estou. Embora também ache que não se deve dizer tudo o que se pensa, temos que dosear onde começa e termina a nossa liberdade, o que é que é realmente provocado pelo outro ou por nós (contra-transferência). Mas um dia escrevo sobre o assunto.

Ritititz disse...

De uma forma ou de outra, vamos limando arestas! Se tivermos noção de quais as arestas a limar, já é meio caminho andado :)

Ana disse...

Custa tanto suster a respiração e contar até 100, 200 ou 1000! Eu tenho uma dificuldade enorme em ficar calada quando sei que tenho razão, não consigo evitar a resposta na ponta da língua, o bater o pé até à exaustão. Lá vou aprendendo a controlar-me em determinadas situações, mas noutras continua a ser inevitável.