quinta-feira, 24 de maio de 2012

Querem mesmo falar sobre a crise?



A conversa girava em torno das greves da CP, do Metro, dos controladores aéreos, das queixas dos trabalhadores, dos cortes nos subsídios dos funcionários públicos, de como tudo está tão caro, desta crise. E de repente alguém diz: "Eu ainda não senti que fui atingida pela crise." E acho que foi a primeira vez que ouvi alguém assumir, sem qualquer problema, alto e bom som, aquilo que é uma realidade para muita gente que eu conheço. As pessoas queixam-se das despesas que têm, do estado a que este país chegou, de que ninguém sabe como será o dia de amanhã. Mas na prática, no dia a dia, poucos são aqueles que apertam verdadeiramente o cinto. Reforço que estou a falar do meu círculo de amizades e conhecidos, que estão todos empregados, na casa dos 30, uns ganham muito bem e outros não ganham mal de todo. Todos se queixam disto e daquilo, que são explorados, que aquilo que ganham é uma miséria para as despesas que têm, que se fartam de trabalhar, que isto está pela hora da morte... mas não vejo ninguém baixar o nível de vida ou a fazer sacrifícios (pelo menos assumidos) por causa da crise. Continuam a ter bons carros, a fazer grandes viagens, a ter iPhones e iPads. A morar em grandes casas, a ir aos festivais de verão, a ter cartões de crédito e comprar sapatos, roupas e malas quando lhes apetece e porque sim. E ainda bem! Mas então queixam-se de quê mesmo?
Eu (infelizmente) não faço parte desse grupo de pessoas, que ganha muito bem, e que de facto não precisa de fazer sacrifícios. Tenho de fazer alguns. Não gosto de lhe gamar sacrifícios, mas antes uma "ginástica orçamental", que implica muito jogo de cintura, travão e gestão de prioridades, para conseguir juntar algum dinheiro ao fim do mês e poder concretizar determinados objetivos. Só assim consigo pagar todas as despesas e ainda fazer as minhas viagens (que também as faço), ter as minhas escapadinhas românticas, fazer a depilação a laser, comprar presentes bons para quem os merece e retirar um prazer imenso de tudo isso. Mas até chegar aí, há todo um mês de trabalho a recibos verdes pelo meio (sem subsídios de nada e sem seguranças de coisa nenhuma), com direito a "almoços de marmita", preparados no dia anterior em casa, com pequeno-almoço e café bebido em casa e não na rua, com compras no supermercado maioritariamente das chamadas "marcas brancas" que são de qualidade igual (não venham cá com tretas), sem cartão de crédito, sem comprar roupa, malas ou sapatos só porque estou com a neura ou sem nada para fazer, sem jantar fora constantemente, sem ir ao cinema quando me apetece, sem arranjar as mãos todas as semanas e os pés todos os meses. Se gostava de poder fazer todas estas coisas sem quaisquer restrições? Gostava, pois! Se sou menos feliz por não as fazer? Claro que não! Mas cada vez mais percebo que a maior crise que vivemos é a de valores, e a flagrante falta de coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz.

2 comentários:

Happy Brunette disse...

Ora aí está um grande verdade, também tenho noção de que há muita gente que vive precisamente da mesma forma que vivia, as despesas são as mesmas, o ordenado é o mesmo então o que muda... Na realidade absolutamente nada, na maioria dos casos e derivado da crise até se apanham pacotes promocionais de viagens, comida, entre outras coisas.
Para quem tem dinheiro esta altura é excelente para investimentos, os carros fazem promoções constantes de tudo e mais alguma coisa, as casa estão consideravelmente mais baratas...
Enfim, queixam-se porque ouvem nas noticias e acaba por ser um tema incontornável ou um excelente tópico para jogar conversa fora... sim porque não se aprende nada, não se chegam a conclusões nenhumas e no final da conversa voltam-se aos mesmos hábitos.
Beijinhos ♥

Miss G. disse...

Olha, Ritititz, eu, mesmo estando a trabalhar por conta de outrém, e tendo por isso mais algumas seguranças do que quem trabalha a recibos verdes, para juntar algum dinheiro (e confesso que tenho conseguido juntar algum, embora muito menos do que o que queria) não posso fazer nem metade das coisas que falas. Sim, é verdade que tinha despesas mensais que quis pagar de uma vez, é verdade que tenho um carro já com 10 anos que me tem levado muito dinheiro, é verdade que tenho que levar carro para o trabalho por as outras opções não serem viáveis. E ainda tenho um part-time, tal como sabes, que me permite juntar mais algum dinheiro ao ordenado. Mas eu sinto e bem a crise. E algumas vezes pergunto-me como seria possível eu viver sozinha, se, por exemplo, neste mês recebi há menos de uma semana e apenas tenho disponível dinheiro para a gasolina o resto do mês... Penso, muitas e muitas e muitas vezes, se estarei a gastar dinheiro em coisas de que não preciso, mas a única coisa que tenho feito, porque precisava mesmo, é comprar alguma roupinha porque não tinha. Não tinha mesmo.