
Acabo de ouvir a Ana Marques dizer numa reportagem da Sic sobre Gordos e Magros, algo que eu sempre disse e que nunca me levavam a sério. Dizia ela, tal como eu disse muito tempo, que aos gordinhos raramente se diz que estão gordos. Olha-se de lado, comenta-se baixinho ou nas costas da pessoa em questão, mas nunca directamente na cara. Enquanto que com os magros há um à vontade que acaba por ser descriminatório, na medida em que se parte do princípio que as pessoas são magras porque querem, porque fazem dietas malucas, porque têm a mania que querem ser modelos, porque têm distúrbios (que sendo o caso deveriam ser respeitados mas não são, e são vistos como manias), porque acham que é moda e beleza ser demasiadamente magro.
Eu fui magra quase toda a minha vida. Mesmo magra. E sofri muito com isso. Porque os comentários, frontais e directos eram constantes: "Tu vê se comes! Estás um pau de virar tripas! Estás com ar mesmo doente! Não tens cara nem para levar uma chapada! Estás mesmo muito magra! Não emagrecas mais por favor! Achas que estás bem assim? Não estás! Já foste ao médico?"
E sim, eu ia ao médico e era perfeitamente saudável. E sim, comia de tudo e mais alguma coisa, até explodir, até não aguentar mais, até chegar a um ponto em que comia todas as porcarias, doces, guloseimas, feijoada ao jantar e mais um prato antes de ir para a cama, ingerir o máximo numero de calorias que conseguia, só para engordar uns míseros 2kg.. e nada. Porque o meu metabolismo era muito rápido, porque eu queimava tudo depressa, porque sempre fui magra e porque simplesmente era assim! Não fazia nada por isso, e custou-me muito, horrores mesmo, ter passado toda a minha adolescência, até aos 23 anos mais ou menos, a pesar menos de 50kg, a vestir 32 nas calças da Bershka e a comprar camisolas XS da Zara. E queria engordar, queria ganhar mais formas, que ainda assim sempre tive sorte de ser uma magra com rabiosque e maminhas, mas claro que queria mais. Mas não conseguia. E de cada vez que me diziam que estava mais magra, e por cada comentário do género acho que emagrecia uns 500g só dos nervos, e que me custavam eternidades a recuperar.
Muitas foram as vezes em que me senti mesmo revoltada, a propósito do que a Ana Marques acabou de dizer, porque tal como eu era magra demais, havia amigas minhas, da mesma idade, que eram gordinhas, que tinham uns kilinhos a mais, e que se viam negras para os perder. E a elas, tirando os pais e avós, não ouvia mais ninguém tecer aqueles comentários directos e ofensivos!
É por isso que, hoje em dia, e com peso de gente normal (agora com pneus aqui e ali e mortinha por perder uns 2 ou 3 kg), muitas vezes continuo a sentir-me magra por dentro, e tenho medo de voltar a ser como era. Continuo a olhar para as miudas magrinhas e encolhidas com empatia e não disparo comentários sobre o peso, nem a gordas nem a magras, porque se há alguém que tem noção do seu corpo são essas pessoas, e não precisam que venham os outros, frustrados com qualquer outra coisa das suas vidas, apontar o dedo e chamar à atenção para aquilo que eles vêem sempre que se olham ao espelho.