terça-feira, 28 de setembro de 2010

Gordos e Magros


Acabo de ouvir a Ana Marques dizer numa reportagem da Sic sobre Gordos e Magros, algo que eu sempre disse e que nunca me levavam a sério. Dizia ela, tal como eu disse muito tempo, que aos gordinhos raramente se diz que estão gordos. Olha-se de lado, comenta-se baixinho ou nas costas da pessoa em questão, mas nunca directamente na cara. Enquanto que com os magros há um à vontade que acaba por ser descriminatório, na medida em que se parte do princípio que as pessoas são magras porque querem, porque fazem dietas malucas, porque têm a mania que querem ser modelos, porque têm distúrbios (que sendo o caso deveriam ser respeitados mas não são, e são vistos como manias), porque acham que é moda e beleza ser demasiadamente magro.
Eu fui magra quase toda a minha vida. Mesmo magra. E sofri muito com isso. Porque os comentários, frontais e directos eram constantes: "Tu vê se comes! Estás um pau de virar tripas! Estás com ar mesmo doente! Não tens cara nem para levar uma chapada! Estás mesmo muito magra! Não emagrecas mais por favor! Achas que estás bem assim? Não estás! Já foste ao médico?"
E sim, eu ia ao médico e era perfeitamente saudável. E sim, comia de tudo e mais alguma coisa, até explodir, até não aguentar mais, até chegar a um ponto em que comia todas as porcarias, doces, guloseimas, feijoada ao jantar e mais um prato antes de ir para a cama, ingerir o máximo numero de calorias que conseguia, só para engordar uns míseros 2kg.. e nada. Porque o meu metabolismo era muito rápido, porque eu queimava tudo depressa, porque sempre fui magra e porque simplesmente era assim! Não fazia nada por isso, e custou-me muito, horrores mesmo, ter passado toda a minha adolescência, até aos 23 anos mais ou menos, a pesar menos de 50kg, a vestir 32 nas calças da Bershka e a comprar camisolas XS da Zara. E queria engordar, queria ganhar mais formas, que ainda assim sempre tive sorte de ser uma magra com rabiosque e maminhas, mas claro que queria mais. Mas não conseguia. E de cada vez que me diziam que estava mais magra, e por cada comentário do género acho que emagrecia uns 500g só dos nervos, e que me custavam eternidades a recuperar.
Muitas foram as vezes em que me senti mesmo revoltada, a propósito do que a Ana Marques acabou de dizer, porque tal como eu era magra demais, havia amigas minhas, da mesma idade, que eram gordinhas, que tinham uns kilinhos a mais, e que se viam negras para os perder. E a elas, tirando os pais e avós, não ouvia mais ninguém tecer aqueles comentários directos e ofensivos!
É por isso que, hoje em dia, e com peso de gente normal (agora com pneus aqui e ali e mortinha por perder uns 2 ou 3 kg), muitas vezes continuo a sentir-me magra por dentro, e tenho medo de voltar a ser como era. Continuo a olhar para as miudas magrinhas e encolhidas com empatia e não disparo comentários sobre o peso, nem a gordas nem a magras, porque se há alguém que tem noção do seu corpo são essas pessoas, e não precisam que venham os outros, frustrados com qualquer outra coisa das suas vidas, apontar o dedo e chamar à atenção para aquilo que eles vêem sempre que se olham ao espelho.

8 comentários:

Kikas disse...

como eu te compreendo.. eu sempre fui magra e, agora, apesar de pesar o mesmo, ainda estou mais magra.
é só comentários do género:
- estás a tentar deixar de comer?
- mais um bocadinho e desapareces.
- estás a fazer um concurso para ver quem come mesmo?
opá, irrita -.- mesmo a minha família não pára de me chatear!! tal é a m*rd* :p

M disse...

Adorei o post. Tudo o que tu dizes é tão verdade. Eu tambem sou magra, sempre o fui. Antes tambem não me sentia bem comigo mesma. Agora já não tenho problemas com isso. Aprendi a aceitar'me como sou. Por mais que coma, não engordo. E, felizmente, os meus colegas não são gozões em relação a isso...

Dé Carvalho disse...

Identifico me bastante com o que escreveste.
Diziam me exactamente as mesmas coisas e fazia o mesmo que aqui escreveste.
Mas hoje com 23 anos já não me preocupo, posso comer tudo o que me apetece e não engordo,não vivo frustada(como a maioria das mulheres) com o peso,e sou saudavel.
Ser magro por genetica dá muita dor de cotovelo :)

Suspiro do Norte disse...

Minha querida, nem sabes o qt concordo ctg..

Sissy disse...

Apesar de já ter estado no lado dos gordos e gordissimos, existe muito preconceito e o falar baixinho é irritante. Demasiado. Devem dizer aquilo que pensam, porque por vezes vão dizer aquilo que muitos nunca tiveram a coragem de falar. E não é apenas isso é também saúde das pessoas. Obviamente magros e gordos todos podem ter problemas de saúde, obvio. No entanto, a probabilidade de ser o 2.º é enorme. A probabilidade de ser o 1.º é bem pequena. A maior parte das vezes não é anorexia, nem bulimia, nem nada disso. É apenas o metabolismo. Enquanto continuarmos a pensar assim, continuará a existir os problemas de saúde que existem.


Beijo***

meninaluaprimavera disse...

pois...eu sempre fui o meio termo e agora, estando grávida, passam a vida a chamar-me "oh gordinha" ou "andas a beber muita cerveja" OU "tens de deixar de comer". não acham isso uma maldade para quem anda com os sentimentos à flor da pele? eu acho isso uma tremenda maldade :S
bj da M. e do S.

Rita disse...

Totalmente de acordo!! A sério. Eu sempre fui "dos outros lados", sempre fui mais cheia, e vejo-me grega para perder 2 kg que seja, e não é por comer mal, ou muito, já que a minha alimentação se baseia em legumes, frutas, coisas grelhadas... e não é por dietas, é simplesmente porque é a comida de que gosto.
Mas sei bem do que falas: e os comentários por trás das costas também magoam muito... Acho que preferia que as pessoas tivessem a coragem de me dizer na cara o que durante a minha adolescência diziam pelas costas; creio que doeria menos.
Hoje em dia já me aceito melhor, mas também passei muito por causa do corpo e do peso..

Pips disse...

Comentários para as Magrinhas:
Solidariedade meninas! Ainda bem que todas já passamos por isso, todas sabemos como é, e ainda bem que a nossa magreza foi sempre natural e saudável. Se os outros não percebiam ou aceitavam isso o problema era deles, não nosso.

Comentários para as Gordinhas:
Solidariedade igual! Apesar de não saber como é, acredito que os mesmos que eram inconvenientes para as magrinhas o fossem convosco e frontalmente ou pelas costas, acabavam por dar o ar da sua graça! Como se não tivéssemos TODOS, sem excepção, complexos com alguma coisa no nosso corpo.
O importante é sentirmo-nos bem na nossa pele e gostarmos daquilo que vemos. Os outros? Peanuts!