sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A ver se nos entendemos





Se calhar expliquei-me mal. Se calhar dei a entender que estava de acordo com as novas medidas e que acho muito bem que toda a gente passe mais meia hora do seu dia enfiada no local de trabalho, mesmo que não tenha nada para fazer. Se calhar pareceu que negligenciei a luta pelas 8h de trabalho. Mas acho que qualquer um de nós parte do princípio que tudo isso é injusto e que não faz qualquer sentido.
O que eu acho é que muita gente ainda não tomou consciência de que medidas como as de ontem vão mesmo passar à prática. Que a coisa está realmente feia e que vamos (classe média e baixa) passar todos um mau bocado. Que (independentemente de ser completamente injusto) vamos ter de apertar o cinto, viver mal e com pouco, ser explorados no trabalho, e viver sem saber como será o dia de amanhã e que futuro dar aos nossos filhos, aqueles que gostavamos de ter mas que agora questionamos se será possível. O que é certo é que vai pagar o justo pelo pecador. Eu não sou resignada nem conformada. Não gosto de ser roubada nem explorada. Mas enquanto não apresentarem outra solução, não vou seguir a típica mentalidade Tuga do queixar-se por tudo e por nada e não fazer a minha parte.
Perguntava-me a Miss G. se as minhas 10h de trabalho estavam estipuladas no contrato. E respondo eu: "Qual contrato?". É que quem trabalha a recibos verdes não tem contrato. Logo não tem horários de trabalho. Nem garantias para coisa nenhuma. Nem ajudas para qualquer eventualidade. Nem subsídios de férias, nem de Natal. Aqueles que vão ser cortados para o ano aos funcionários públicos que toda a vida usufruiram deles. Eu nunca usufrui de nenhum. Nem colegas meus que trabalham há uma década (ainda antes da crise rebentar). Nem sabemos quando isso vai acontecer. Mas vamos deixar de trabalhar? Despeço-me? Venho para a rua reivindicar, participar em manifestações, demonstrar a minha indignação? Em vez de continuar a trabalhar, em condições precárias é certo, mas ainda assim a garantir a minha sobrevivência e a ser um elemento produtivo numa empresa.
Há que ter noção das coisas. Isto é mau? É. Pode tornar-se cada vez pior? Pode. Mas e que tal parar com as queixas, viver conforme as possibilidades, ser pro-ativo e contribuir para uma sociedade mais competitiva e que gere lucro?
Estou tão indignada como qualquer cidadão português consciente neste momento. Mas não é no FB, ou nos blogues ou até mesmo nas manifestações que a coisa se resolve.

4 comentários:

Rita G. disse...

Concordo contigo, assino por baixo. Se uns se queixam do que perdem, outros podem queixar-se do que nunca tiveram. Enfim, o mais importante agora é a união de todos para que a implementação das medidas possa dar resultado. Olhando para a Grécia, a revolta, a violência e as greves não levam a nada, só servem para afundar ainda mais o país.Vejo que as coisas estão para lá dé mal, que sobreviver é cada vez mais difícil, mas estou disposta a fazer a minha parte e esperar para ver. bj!

Ana disse...

E eu que tenho contrato, ou melhor, tinha, porque depois passei a efectiva, e nunca vi subsídio de Natal ou de férias, desde que ali trabalho (há 6 anos)? E consta no meu recibo de ordenado que os recebo. Ah pois. E vêm não sei quantas alminhas dizer-me que eu não devia aceitar a situação, que devia fazer queixa, que se fosse com elas era assim e assado. Eu tenho contas para pagar ao fim do mês, não me posso dar ao luxo de ficar sem um emprego que, bem ou mal, me vai dando um ordenado. Não me posso dar ao luxo de andar a alimentar guerras com o patronato, mesmo sabendo que teria toda a razão do meu lado. Os empregos não abundam por aí e se há quem tenha recursos para poder arriscar, eu não tenho. Só poderia sair dali, se no dia seguinte começasse noutro lado e com a garantia de que não me mandariam embora a qualquer momento. Por isso não arrisco, e não me queixo legalmente, e aceito, e vou fazendo o meu trabalho o melhor que posso e sei. Já trabalhei horas extras e sábados, e nunca vi um tostão a mais por isso. Paciência, vou fazer o quê? Despedir-me? Não posso. Revolta-me, claro, tal como a ti e a muita gente, mas concordo que temos de ter noção de que nem sempre nos podemos armar em heróis.

Miss G. disse...

Ritititz,

Perguntei porque não sabia que não tinhas contrato. Tal como sabes também trabalho a recibos verdes e além disso apenas ganho as horas que trabalho (e também não tenho contrato mas são situações diferentes porque eu só lá estou quando há trabalho). Mas quem trabalha a recibos verdes (a tempo inteiro) pode (e deve segundo a lei) ter contrato de prestação de serviços com a empresa onde os presta sobretudo se o trabalho for prolongado no tempo (e não tendo nenhumas regalias cmo os subsídios pode e deve ter um horário de trabalho - são coisas diferentes). E isto já para não dizer que o trabalho a recibos verdes a tempo inteiro é ilegal (por isso é um bocado estranho estar aqui a falar de lei). Mas claro que não vamos ficar sem trabalhar. Temos de aproveitar o que há porque as coisas estão mesmo más mas penso que também devemos protestar. Por não protestarmos mais e sermos tão brandos e termos esta mentalidade "é mau mas é o que há e se eu não aceitar há quem aceite" é que estamos como estamos (e isto para não falar que muitas destas medidas não estão mo memorando da troika -são medidas extra- que na minha opinião vão apenas servir para estagnar a economia porque as pessoas não vão ter para gastar e a economia vai parar - por algum motivo elas não estão no memorando, não se pode querer fazer tudo ao mesmo tempo sob pena de o tratamento ser pior do que a doença). É possível não protestar e aceitarmos calados medidas que achamos que não vão resolver a questão e ainda a vão piorar? Mas vamos cumprí-las? Claro.
Não te estou a criticar porque vivo no mesmo país e na mesma realidade e sei que muitas vezes mesmo não querendo não temos outra solução. Mas há coisas que apesar de saber que tenho de cumprir continuo a achar inaceitáveis e vou refilar o que puder.
Conclusão: não nos vamos despedir nem deixar de trabalhar, nem foi isso que eu quis dizer, vamos claro ser pro-activos e contribuir para uma sociedade que dê lucro e viver de acordo com as prioridades, mas podemos continuar a fazê-lo lutando por melhores condições, indignando-nos quando achamos que as coisas são injustas, e contribuindo para que as coisas melhorem. Não sei se isto é queixarmo-nos ou não mas se é então eu vou queixar-me embora continue a trabalhar (a acumular trabalhos para ser mais exacta).
Enfim, podia estar aqui muito mais tempo a falar disto, mas acho que o que disse já explica o meu ponto de vista.
Percebi o que quiseste dizer no texto anterior. Não achei que estivesses de acordo com as medidas. O que acho é que há coisas nas quais não se devia mexer e outras onde se devia mexer (gestores de empresas públicas, etc.) e se deixam como estão.
Mas por favor, protestar não significa que a pessoa não queira fazer a sua parte porque o que entendo por protestos não é o que se passa na Grécia (e aos protestos de muitos se deve a queda da ditadura por exemplo).
Costumo concordar quase sempre contigo mas hoje não consigo. Não consigo porque não acho que quem protesta/queixa/refila não quer trabalhar. Não consigo porque não sinto que estas medidas sejam a solução e como tal tenho que falar.

Beijinhos

Eu Mesma! disse...

Eu aqui concordo e discordo com o que está escrito...

concordo que estas medidas nem vale a pena refilar ou contestar mas sim tentar aceitar o estado em que o país está e tentar contribuir da melhor forma mas...

discordo quando se diz que em recibos verdes não há contratos... porque eu já trabalhei a recibos verdes e sim tinha contrato e férias... discordo quando se refere que não se vai contestar pela ausência de dois ordenados estando efectivo numa empresa porque... enquanto os trabalhadores não reclamarem as entidades patronais fazem o que querem...

agora... não é com manifestações que se ensina o correcto a quem faz o errado há anos... 6 anos como a Ana diz... mas sim com calma e paciência e talvez... alegando um belo de um processo no tribunal de trabalho porque... situações dessas sim... são inadmissíveis...

eu pessoalmente sou efectiva... recebo (até agora... o futuro logo se verá) os 14 ordenados a que tenho direito mas... não... não recebo horas extraordinárias... tb as não exijo porque... quando chego atrasada, vou ao medico ou apenas porque tenho que sair mais cedo por motivos pessoais... tb não me é retirado nada do meu ordenado e não me é exigida nem um único comprovativo...

as relações de confiança entre entidades patronais e empregados criam-se e são recíprocas... no dia em que me for exigida justificação de alguma ausência... é o dia em que eu irei exigir o pagamento das horas extraordinárias...

mas compreendo que... cada caso seja um caso :(